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O PAPEL DO INFLUENCIADOR NO MARKETING DAS IES*

Instituto Qualibest divulga pesquisas sobre o papel dos influenciadores na decisão de consumo das pessoas. Até pouco tempo, o assunto não despertava minha atenção. Como tenho participado de diversas reuniões, compartilho algumas ideias, mesmo não sendo um especialista em marketing educacional. Corro o risco de simplificar uma discussão que merece mais reflexão. Entretanto, acredito que é preciso discutir o tema.

Em uma recente reunião, uma IES apresentou uma estratégia de marketing para aumentar a visibilidade via mídias sociais. Naquele momento, o foco era a contratação do João L. Pedrosa, do BBB21. Houve, da minha parte, uma reação de estranheza em relação à contratação do ex-BBB. Perguntei se o que o contratado representava estava alinhado com a proposta educacional da IES. O mantenedor da instituição argumentou que sim e que era preciso chamar atenção dos jovens e disputar espaços nas mídias sociais.

Recentemente, um reitor comentou que fez um anúncio assertivo em um programa de TV. De forma imediata, a instituição recebeu 50 contatos de WhatsApp em 30 segundos.  Ele argumenta que, para esse tipo de estratégia, a instituição precisa estar com “a máquina de captação redonda”.

A Universidade Estácio contratou a vencedora do BBB2, Juliette Freire. Ela fará a campanha “Faça seu Brilho” para o 2º. semestre de 2021. O convite será para que o aluno realize seu sonho na instituição. O Gil do Vigor foi contratado pela Ânima Educação com o propósito de divulgar o ecossistema inovador da instituição.

Há pesquisas que indicam que mais de 70% das pessoas consome um produto em função das indicações de um influenciador. É inegável o papel dos influenciadores digitais. É uma prática que tem se intensificado no ensino superior. A estratégia de contratar um influenciador requer uma boa concepção de campanha, abertura para novas abordagens, coragem para refazer estratégias e realocação de recursos para a captação de novos estudantes.

É consenso que as estratégias de captação de estudantes e as campanhas de vestibular precisam de novos direcionamentos. O exemplo da Nubank é significativo. O banco digital resolveu contratar a cantora Anitta para o Conselho de Administração. O CEO do banco, David Velez, argumenta que ela trará para o banco conhecimento do comportamento dos consumidores. Sim, ela trará diversidade e comunicação com os jovens. A presença da Anitta gerou polêmicas, mas ela tem uma visão do mundo digital e pode rejuvenescer as decisões do conselho de um banco que nasceu para romper os paradigmas convencionais.

Há IES que provavelmente enfrentam ou vão enfrentar um conflito de gerações entre seus gestores e os jovens interessados em acessar o ensino superior. Os jovens frequentam os espaços virtuais, se comunicam de forma diferente e possuem valores que podem estar desalinhados com a percepção dos reitores e mantenedores. É preciso ficar atento aos possíveis desalinhamentos de percepções e direcionamentos institucionais.

Se de um lado a contratação de um influenciador é positiva para chamar atenção e gerar leads, do outro, pode gerar polêmicas em função da ausência de identidade com a IES e com a sua proposta acadêmica. O fato é que as IES, entre tantas outras organizações, estão disputando a atenção dos jovens, há anos, em um ambiente farto de informações.

Talvez esteja aí a vantagem de um influenciador: a IES terá um aumento dos leads, ampliará o olhar para a instituição e chamará atenção dos jovens interessados no ensino superior. O desafio é ser percebido em um ambiente em que diversas IES anunciam que possuem qualidade e boa infraestrutura, que são bem avaliadas pelo MEC, entre outros anúncios comuns.

Acredito que uma IES reconhecida pela sociedade como relevante, sólida em sua proposta acadêmica e que tenha prestígio com os empregadores pode se abster de contratar um influenciador. Há ainda as IES com nichos bem definidos que talvez não precisem de influenciadores. Tenho uma hipótese: quando uma IES não tem diferenciais percebidos e tangíveis pela sociedade e atua em ambiente de grande concorrência, ela, provavelmente, precisará de um influenciador para chamar atenção dos jovens, gerar leads e aumentar as matrículas.

A contratação de um influenciador poderá ser bem-vinda quando a IES disputa um mercado amplo, como no caso do EAD, por exemplo, ou quando atua em regiões com concorrência acirrada e não tem diferenciais percebidos e assimilados pela sociedade.

É preciso chamar atenção para um fato: não há influenciador que dê conta de aumentar matricula de uma IES que não tem em seu DNA a educação como propósito.

Uma IES pode gastar “rios de dinheiro”, mas as matriculas não irão se manter sólidas se ela não tiver relevância educacional. A imagem não é tudo, ela pode ser líquida e evaporar nos primeiros desconfortos. Quem não tem proposta acadêmica séria não se sustenta.

De qualquer forma, todas as IES precisam acompanhar os impactos gerados pela contração dos influenciadores, avaliar os resultados e perceber as tendências do marketing educacional.

*Fábio Reis, diretor de Inovação e Redes do Semesp.

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O ensino superior em transformação

Desconheço IES inovadoras que tenham abolido conceitos e teorias do processo de ensino e aprendizagem. Às vezes acontecem distorções, pois há pessoas que fazem confusão ao acreditarem que a inovação acadêmica representa o enfraquecimento da formação teórica.  A inovação disruptiva em uma instituição de ensino não poderá romper com os princípios do ensino superior, especialmente, com a solidez da formação das pessoas.   

 Há instituições que eliminaram disciplinas convencionais,  porém, os estudantes continuam dependendo do domínio da língua nativa, da matemática ou da física, por exemplo. Inovar, não é acabar com matemática ou português, é saber como incluí-las em um currículo desafiador. A discussão não é sobre o fim ou a permanência das disciplinas. É sobre a estratégia que trará melhor impacto no aprendizado.

Transformar o ensino superior não significa abolir conhecimentos. Ciência e tecnologia provêm do ensino, da aprendizagem, da pesquisa e da extensão. Quem tem dificuldades com a língua portuguesa terá problemas com a escrita e com a comunicação. O novo não pode ser vazio e líquido. Ensino superior exige formação sólida. A inovação deve ser resultado de reflexão e conhecimento sobre o que se quer inovar e por quê.  

As IES precisam priorizar a formação por competências, precisam integrar o conhecimento com projetos, não com disciplinas estanques. A educação necessita instigar a criatividade, o sonho, o empreendedorismo, a compreensão do mundo, a cidadania, o respeito à diversidade e romper com o convencionalismo, inclusive, das avaliações que estimulam as decorebas, não o aprendizado.

As IES necessitam enfrentar o desafio de oferecerem uma formação integral. Aliás, nos primeiros anos das graduações acredito que os estudantes devem descobrir o mundo do ensino superior, as competências das soft skills e serem estimulados a buscar o conhecimento como protagonistas do aprendizado e a desenvolver projetos.

Posteriormente, os estudantes poderiam começar a se vincular a uma determinada área do conhecimento: engenharia, medicina, direito ou história, entre outros. As IES que não fazem isso justificam que está na cultura do estudante o desejo por disciplinas específicas, logo nos primeiros semestres.  Eu diria que é uma cultura inventada pelas próprias IES. Há uma convenção de organização do currículo e poucos ousam fazer diferente.

Não se pode pressentir a morte do ensino superior, mas que ele é e será transformado continuamente. Há IES com maior capacidade de transformação, há IES mais lentas e, provavelmente e há aquelas que falam sobre como mudar, mas que continuam vendo o mundo das janelas dos seus gestores. A sociedade é dinâmica, os comportamentos mudam, as tecnologias mudam e as instituições precisam se adaptar.

 Conheço gestores que refizeram a organização curricular dos cursos de graduação e dos planos de ensino das disciplinas, porque constataram repetições ou temas que não estavam alinhados com o perfil dos egressos.

Há currículos esdrúxulos, há tópicos em nossos planos de ensino que talvez não façam sentido para a formação dos nossos estudantes, mas é preciso ter sabedoria para fazer escolhas. Não se pode excluir o que é formação para a vida, para as competências, para o que é base para a ciência, para a tecnologia e para a formação integral.     

As IES precisam buscar novos parâmetros de qualidade e novos paradigmas para o ensino superior. Não dá para continuarmos com o risco do modelo de educação da era industrial e de oferecermos um diploma com pouco valor. Pode até ser uma opção “destruir o atual paradigma da IES para reconstruí-lo”, mas a reconstrução, provavelmente, será feita com base na  história da IES.  

Espero que os gestores façam inovação, que busquem a transformação de forma contínua e que tenham maturidade para não caírem no dilema de “vida ou morte” (faça isso ou morrerá). As boas IES oferecem formação sólida, pois sabem que o diploma tem de agregar valor.            

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Currículo Inovador

A Unicesumar decidiu fazer um redesenho do seu currículo, nos cursos de graduação presencial. Houve participação de gestores do EAD e de outras áreas, que enriqueceram a discussão. A Tec. de Monterrey deu suporte ao  trabalho.  O redesenho curricular possui os seguintes elementos-chaves:

1- O redesenho foi elaborado com base no perfil dos estudantes e dos egressos e na opinião de professores, pais e empresários, após pesquisas com esses públicos

2- As diretrizes que nortearam o redesenho estão alinhadas com a identidade institucional

3- Os elementos estratégicos que sustentam a trajetória do estudante durante o curso de graduação foram definidos 

4- O novo desenho curricular tem um perfil híbrido, está focado na resolução de problemas reais e no equilíbrio entre teoria e prática. O estudante será estimulado a apreender a aprender

5- Houve consenso em relação aos elementos habilitadores do currículo, que permitem a sua implementação e dão suporte ao seu funcionamento 

6- Há uma concepção de avaliação ampla e o processo de aprendizagem contínua passará a ter relevância nas avaliações

7- A qualidade é um valor e um dos alicerces institucionais, portanto, o currículo irá expressar o compromisso com a qualidade, na percepção da sociedade e nas avaliações do MEC

8- O estudante irá percorrer três etapas: a) descobrir (de forma transversal e interdisciplinar, o mundo do ensino superior e as soft skills); vincular (a um curso de graduação); transformar (através de uma série de atividades estruturadas, ideias em projetos reais).

O redesenho do currículo é realizado de forma planejada, coletiva e reflexiva, orientado pela demanda, focado no perfil do estudante e do egresso e capaz de gerar um processo de diálogo com a sociedade.

Há uma especial atenção com a capacitação dos professores. Se eles não estiverem alinhados com o novo currículo, a mudança terá grande chance de fracassar ou obter resultado parcial. O currículo Unicesumar 2022 será inovador.    

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FORMAR PESSOAS NÃO É A MESMA COISA QUE FAZER PARAFUSOS*

21 de junho de 2021

O ensino superior não é um processo mecânico de formação de pessoas, estruturado em ações repetitivas que exigem pouca reflexão. Recentemente, Paulo Blikstein fez uma relação entre educação e produção de parafusos em um diálogo com gestores do Consórcio Sthem Brasil. Uso essa relação e a reinterpreto no presente artigo. O fato é que o ensino superior não pode se limitar a processos repetitivos em que o estudante não é estimulado a aprender a aprender.

Embora exija conhecimentos, a produção de parafusos é cada vez mais processual, automatizada e repetitiva. Parafusos seguem um padrão de produção, e escolas padronizadas são um perigo para a criatividade e inovação. A educação com impacto na formação dos jovens requer o desenvolvimento de pessoas criativas que aprendem a aprender, pessoas proativas e cidadãs que buscam soluções para problemas sociais.

A educação requer, ainda, flexibilidade, individualização do aprendizado, trilhas de aprendizado, o que não é possível em um processo industrial. Se as IES permanecerem semelhantes à produção industrial do século 20, provavelmente já estão ou entrarão em crise.

Parafusos são objetos estáticos e possuem diferentes formas de uso. É preciso considerar também que há parafusos feitos por robôs que aprendem via Inteligência Artificial. A robótica avançada usa uma inteligência capaz de apreender continuamente.

Há um tom de provocação ao relacionar a educação e a produção de parafusos, porque existe um risco das IES entregarem um diploma que comprova que a pessoa concluiu o ensino superior, mas essa pessoa pode não ser capaz de corresponder às demandas do mercado de trabalho, ou mesmo não ter a competência para desenvolver um negócio próprio.

Se a dinâmica acadêmica de uma IES  é estruturada por um currículo fragmentado em disciplinas, pouco interdisciplinar, conteudista, alicerçado por uma avaliação que cobra repetições e “decorebas” e por um modelo acadêmico que não estimula ações que busquem a resolução de problemas sociais, provavelmente a instituição está priorizando commodities e a “produção de parafusos”. O resultado é um conjunto de egressos com diploma, mas sem emprego ou com uma renda incompatível com a formação na graduação.

É um perigo as IES investirem mais em commodities do que na essência da educação: pessoas, formação integral, concepção do projeto acadêmico, plano sobre o que se vai ensinar e como se vai ensinar.

Quando a pandemia começou, investimos em plataformas, compramos ou aprendemos a utilizar novas tecnologias, adquirimos licenças para o uso do Zoom, do Teams, do Google Meet e atuamos para “apagar o incêndio”, tudo isso em um contexto de mudanças bruscas. Toda a parafernália que passamos a utilizar em 2020 não sustentará, no entanto, o funcionamento adequado da IES. Não se pode investir em tecnologia para resolver um problema de custo operacional. A tecnologia precisa ser uma aliada do professor e do aprendizado dos estudantes.

A IES prospera com pessoas talentosas e inovadoras em seu time. Essas pessoas são capazes de elaborar projetos consistentes e sustentáveis financeiramente. Por outro lado, se uma IES inicia um processo de transformação institucional e o primeiro foco é o resultado financeiro, na minha opinião, ela começou o processo de forma equivocada.

A organização acadêmica de uma IES está mais complexa. Não basta uma plataforma, um currículo, professores titulados, infraestrutura bonita, entre outros commodities. Aliás, na atualidade, os resultados do ENADE e do IGC não representam a garantia de sucesso da IES.

As IES precisam de gestão e pessoas capazes de desenhar o modelo acadêmico de forma sintonizada com as demandas dos estudantes, dos egressos, dos pais, dos empregadores, dos agentes públicos, enfim, da sociedade. Isso exige inteligência institucional, uma “engenharia pedagógica”.

A instituição que continuar oferecendo commodities sem valor agregado, provavelmente corre o risco de consolidar sua imagem como uma instituição convencional e pouco relevante, o que pode gerar perda da relevância.

Há dirigentes de IES que já começaram a se mobilizar e estão investindo em inovação acadêmica de forma adequada. São líderes que sabem que não dá para formar pessoas como se produz parafusos, em um processo industrial, para entrarem em medidas convencionais, padronizadas. Por outro lado, é preciso aproveitar as ferramentas tecnológicas da revolução digital para acompanhar e qualificar o processo de aprendizagem dos estudantes.

*Fábio Reis, diretor de Inovação e Redes do Semesp

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Rumo à transformação

Em setembro de 2020, Unicesumar e Tec. de Monterrey assinaram um acordo de cooperação com três objetivos: a) intensificar institucionalmente o processo de inovação; b) fazer um redesenho curricular nos cursos de graduação presencial; c) viabilizar transferências de tecnologias.

O Vice-Reitor, Wilson Filho,  tem um frase que sintetiza as motivações  do acordo de cooperação com a Tec: “o sucesso dos 30 anos, não garante o sucesso dos próximos 30 anos”.

A Unicesumar tem bons conceitos no MEC, declara que a qualidade é um princípio institucional, tem projetos inovadores, é sustentável e possui uma das maiores taxas de matrícula de EAD do Brasil.  Apesar dos bons resultados, a Reitoria reconhece que é preciso fazer transformações institucionais.

A instituição tem uma identidade sólida  e uma cultura institucional que é conhecida pela comunidade acadêmica. Está aí a beleza do processo: a Reitoria está disposta a fazer transformações na Unicesumar, aos 30 anos de idade, com o objetivo de rumar para um futuro próspero.  As diretrizes da  4o. Revolução Industrial alimentam o processo de mudanças institucionais.    

Apreendi em  um workshop na Universidade  de Londres, com o professor Paul Temple, em 2010, que as IES, de modo geral, podem viver  paradoxos: possuem rituais e tradições, mas ao mesmo tempo, almejam a inovação. Os paradoxos não podem levar a esquizofrenias e confrontos internos. Eles precisam ser resolvidos, para todos os setores da IES caminharem na mesma direção.

Nesse sentido, a Reitoria da Unicesumar não pretende negar seu passado, mas construir um processo de inovação e de redesenho curricular, que não rompa com seus valores institucionais e que corresponda às demandas da sociedade. Há o desejo de ser uma IES do séc. 21.   

A cooperação com a Tec. de Monterrey é valiosa, porque a instituição percorreu o caminho das pedras, refez o projeto acadêmico e, principalmente, tem um histórico de inovação consistente, reconhecido internacionalmente através dos diversos rankings internacionais. Lá, foi instituído em 2019 o modelo Tec. 21. Provavelmente, é o modelo acadêmico mais inovador da América Latina. Foram seis anos de estudos, reflexão, planejamento, testes e avaliações. A elaboração do modelo contou com a participação da comunidade interna e externa. 

A Unicesumar também optou por construir um modelo acadêmico relevante, focado no aprendizado e na experiência do estudante. Desde fevereiro de 2020, há uma equipe trabalhando semanalmente na elaboração do que a universidade chamou incialmente de Projeto XP Futuro e agora é conhecido como Cesu22. A meta é implementar o modelo, no primeiro semestre de 2022, em todos os cursos  de graduação presencial. 

A Unicesumar tem a oportunidade de se tornar uma universidade de referência nacional em inovação.  Observo que outras IES brasileiras caminham no mesmo sentido. Sei que as instituições do Consórcio Sthem Brasil investem em processos de inovação acadêmica, com bons resultados. 

A cooperação da Unicesumar com a Tec de Monterrey é um processo coletivo de aprendizados. O modelo acadêmico terá como base propostas oriundas de diálogos, de estudos, de debates e de pesquisas  com estudantes e com seus pais, com egressos, com professores, com gestores institucionais e com empregadores. O modelo que está em fase de elaboração não irá nascer em um gabinete ou em uma reunião virtual com poucas pessoas. Há um consenso: o sucesso dá empreitada depende da consistência do projeto, da capacitação e do envolvimento das pessoas, da comunicação e dos alinhamentos internos.      

A Reitoria é participativa e tem dado apoio a todas as etapas do processo de cooperação com a Tec. Espero que em breve possamos anunciar para a sociedade, as bases do modelo acadêmico Cesu22. 

A instituição iniciou um caminho rumo a uma transformação institucional que respeita sua identidade e que permitirá o alinhamento com os melhores parâmetros do ensino superior. Por ser um projeto bem estruturado, acredito que é preciso anunciar e escrever sobre  o que há de novo no sistema. Estou como diretor de inovação da Unicesumar, focado na construção do modelo Cesu22.

Termino com um convite: meus caros gestores façam as transformações institucionais que possam conduzir suas IES rumo ao futuro próspero, de forma sólida e em redes. Não deixe de cooperar com quem tem bons propósitos. 

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Uma visão pessimista: o temor de que o mais do mesmo prevaleça.

Lemos artigos  e livros, participamos de webinares e conversamos com diversas pessoas sobre as transformações que a pandemia deveria gerar no comportamento das pessoas e na organização e dinâmica das IES. Criamos expectativas de um mundo melhor.  

Eu sou um otimista e sonhei e sonho com mudanças no ensino superior, acredito no poder da inovação, na vontade das pessoas, em especial dos líderes ousados e corajosos em fazer transformações institucionais, em função das oportunidades trazidas pela pandemia. 

O Semesp, o Consórcio Sthem Brasil, a MetaRed e tantos outros eventos e movimentos têm apontado soluções e trabalhado para uma mudança de mindiset. Pintamos um novo normal com as cores da inovação.

Será que as mudanças que foram projetadas serão consolidas? Às vezes, um cenário pessimista aparece em minha perspectiva e o olhar sobre as mudanças fica mais escuro. A crise econômica, política, ética e da própria democracia deveria despertar o desejo de comportamentos  empáticos, de defesa de ações de solidariedade e de justiça social, da democracia como uma conquista  inegociável, de uma educação  humanizada em contexto que requer solidariedade e respeito em relação à dor da perda da vida e das injustiças.   

Não há ausência de ações em defesa dos temas relacionados acima no ensino superior, mas, talvez, seja preciso avançar e organizar ações de maior impacto. Nossas IES estão lutando para superar a crise da evasão, da captação e da baixa disponibilidade de recursos financeiros. Em muitos casos, é um luta pela sobrevivência, mas é preciso termos consciência de que somos instituições de educação, de formação cidadã e que o compromisso social é algo que deveria ser inerente a nossa existência. Temas como empatia, igualdade, equidade, justiça, formação humana, solidariedade, ética e democracia precisam estar presentes em nossa dinâmica acadêmica.   

Nós, das IES, fazemos discursos e afirmamos que somos inovadores, mas precisamos ter projetos inovadores muito bem desenhados, ter propostas de uma educação híbrida consistente, ter ensino baseado em projetos ou desafios bem estruturados e acompanhados pelos professores, ter programas de acompanhamento do desempenho acadêmico e da estabilidade da saúde metal dos professores e dos alunos. 

Temo que inovações sejam feitas sem planejamento, que mudanças sejam organizadas para baixar custo (o que é necessário e legítimo), mas que carecem de solidez acadêmica.  Temo que o desejo de retorno ao presencial seja maior do que o desejo de uma educação híbrida bem estruturada. Temo que as avaliações aplicadas aos estudantes continuem sendo “decoreba ou repetições de livros, artigos ou de slides e falas dos professores. Temo que a formação por competência seja um desejo continuo, mas uma realidade e prática distante. Temo que o diálogo com o setor produtivo continue sendo objeto de palestras, pesquisas e de conversas entre gestores. Temo que continuemos com pouca atenção à capacitação dos professores, bem estruturada. Temo gestores de IES autoritários e centralizadores.  

Temo um retrocesso no home office. Aprendemos que é possível trabalhar de qualquer lugar com qualidade e entrega.  Em 2006, José Joaquin Mira, da Universidade Miguel Hernandez, da Espanha, já falava: Fábio, você já pode trabalhar de qualquer lugar?”.  Estou argumentando em causa própria? Não. Eu desconfiava do home office, no entanto, a produtividade do Semesp, onde trabalho, aumentou em 2020. E eu escrevo sobre assuntos em que acredito. 

Temo o apego a infraestruturas, temo que os discursos sejam bonitos e inovadores, mas as formas das coisas sejam as mesmas. Temo que criamos a possibilidade da mudança, mas solenemente, recuamos, em função de convenções que não queremos superar, de tradições, de resistências à mudança cultural. Não basta pintar a parede de cores rejuvenescentes e ter móveis com design inovadores, é preciso ter uma mente inovadora.

Temo que o MEC não avance em sua agenda de desburocratização, temo que continuemos acreditando que não é possível inovar, porque o MEC não deixa ou porque o avaliador não entende a mudança em direção à inovação. Temo falas assim: a inovação é incompatível com a avaliação do MEC, portanto, vamos fazer pequenos ajustes. Pequenos ajustes são bem-vindos, mas não transformam a IES.    

O estudante já pode aprender a qualquer hora e em qualquer lugar, basta ter acesso à internet. Temo o pouco investimento em tecnologia, em acesso, em Laboratórios virtuais, em Inteligência Artificial, em Realidade Aumentada.

O estudante com acesso remoto à educação  elimina a presencialidade?  Não. Não elimina o contato social, não elimina a presença do estudante no campus para o desenvolvimento de projetos e outras vivências colaborativas, de fortalecimento das inter-relações. A infraestrutura dos campus precisará ser reorganizada. É preciso aceitar que o mundo será híbrido, que as pessoas não irão diariamente  ao escritório, que o aluno não irá todo dia para a IES. Temo resistências ao redesenho do currículo, porque a “grade currícular” nos dá segurança, já que há séculos estão organizadas da mesma forma.

É preciso desapegar e mudar concepções. É preciso ter coragem e conhecimento, é preciso dialogar. O texto que escrevi acima talvez seja resultado de uma noite mal dormida ou de algum pesadelo. Os temores são pessoais, portanto, os meus temores podem não ser os do leitor, mas faço um convite: trabalhemos juntos para mudar a educação. Vamos juntos embarcar para um futuro com paradigmas consistentes de inovação em nossas IES. Em minha bola de cristal, se os temores indicados acima se consolidarem em alguma IES, essa instituição terá mais passado do que futuro. Olhemos o mundo sem as amarras do mais do mesmo.

Fim. 07h57 minutos, do dia 01 de junho.      

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Open University e a pedagogia da justiça social

                                                    Fábio Reis

Já fiz minha “profissão de fé” e declarei que acredito na inovação acadêmica como um das soluções para o sucesso da IES e como uma forma de sintonizar a instituição com as demandas e desafios do séc. 21.

Também tenho outras percepções sobre o ensino superior, entre elas: a) dedicamos tempo no aperfeiçoamento da gestão, no uso de modelos de aprendizagem e de metodologias e em mecanismos de retorno financeiro, o que é legitimo e necessário, mas, de modo geral, deixamos para um segundo plano a inserção de temas sociais nas estratégias institucionais.  b) a educação tem um papel social, portanto, investir tempo e recursos em temas como igualdade, equidade, inclusão e justiça é função de uma IES;

Priorizar a inovação, a gestão, as metodologias de aprendizagem, as tecnologias, a busca pelo retorno financeiro não pode representar uma possível falta de cuidado com os temas sociais. Acredito que uma IES pode se transformar através da inovação acadêmica, mas a IES é, acima de tudo, uma instituição de educação que possui um papel social.

O leitor, gestor de IES, pode estar pensando: Fábio, já investimentos em diversas atividades, e às vezes assumimos ações e custos que provavelmente deveriam ser do poder público. Pode ainda pensar: Fábio, temos bons projetos de extensão, em todos os nossos cursos de graduação, portanto, cumprimos o nosso papel social.

Minhas respostas para as dúvidas hipotéticas: temos carências de políticas públicas no Brasil e um cenário de aumento da pobreza. De fato, há situações em que a IES assume funções do poder público, por outro lado, é preciso reconhecer que a instituição está inserida em uma sociedade que possui uma série de carências e que cabe às instituições de educação contribuir para a solução de problemas sociais. Também precisamos entender que as atividades de extensão não podem ser para cumprir uma determinação do MEC, não podem ser fluídas e de pouco impacto.

Para sustentar a minha argumentação, cito o exemplo da Open University, da Inglaterra. A Open se tornou parceira do Consórcio Sthem Brasil e, no dia 25 de maio, organizou um workshop para mais de 250 professores, de 64 IES públicas e privadas.

Por que meu exemplo é a Open? Primeiro, pode ser uma universidade com 175.000 mil estudantes, de diferentes países, que defende a pedagogia da justiça social. Segundo, porque a Open tem um projeto acadêmico sólido, que supõe novas tecnologias, metodologias de aprendizagem, diferentes formas de avaliação, trabalho colaborativo, mas que também prioriza um modelo acadêmico pautado na justiça social, da igualdade, na equidade e no acesso.

Na Open, a inovação acadêmica está associada ao que eles chamam de pedagogia da justiça social, que significa um conjunto de atividades que privilegiam o respeito à diversidade, a inclusão, a equidade e a busca constante de remover as discriminações. Os estudantes são empoderados e convidados a participarem da revisão do currículo.

O fato é que uma IES tem responsabilidades sociais. A curricularização da extensão não pode ser pensada como algo formal, para cumprir uma norma do MEC. Acredito em IES que possuem compromissos com a inserção social e com a extensão.

Uma instituição de educação que se torna relevante apenas para o mercado de trabalho ou para os empregadores, provavelmente, falha na formação integral dos estudantes, forma pessoas sem vínculos com temas sociais, o que pode favorecer posturas de discriminação, exclusão, visão elitista, falta de compromisso em resolver problemas de injustiças sociais. 

Ao acompanhar o workshop organizado pela Open University para o Consórcio Sthem Brasil, logo pensei: que incrível, uma IES 100% on-line declarar e tornar realidade projetos justiça social no currículo, de forma transversal, de forma tão consistente. Espero que o mundo do ensino superior seja “dominado” por IES relevantes, sólidas em seus projetos acadêmicos, compromissadas com temas sociais e interessadas em pesquisas de impacto.      

Fábio Reis: Diretor de Inovação e Redes do Semesp, Presidente do Consórcio Sthem Brasil, Secretário Executivo da MetaRed, Diretor de Inovação Acadêmica da Unicesumar, professor do Unisal.                   

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Ser relevante é uma condição de sobrevivência para a IES

                                                                                   Fábio Reis       

Ser relevante é ser importante, é ter valor, é ser vantajoso. A palavra nasceu do latim relevans, que significa “retirar alguém de um problema”. Uma IES relevante “resolve problemas” dos estudantes, da sociedade e do país. Nela, o diploma é mais que um atestado de conclusão do ensino superior.

Resolver problemas, nesse caso, é formar pessoas que passaram por um processo de crescimento pessoal, que sejam capazes de exercer uma cidadania ativa e que tenham condições de exercer atividades profissionais, em um emprego ou em uma iniciativa empreendedora. Acredito que teremos cada vez mais estudantes que sabem que o seu investimento de tempo e de recursos financeiros precisa ter uma taxa de retorno, inclusive econômico.

Suponho que nos próximos anos haverá uma espécie de seleção natural das IES. As instituições relevantes vão prosperar, por terem valor agregado para os estudantes. As IES pouco relevantes terão problemas financeiros, a captação de estudantes irá diminuir e os empregos dos estudantes não terão bons indicadores de compatibilidade com a formação na graduação e com salários.       

Verificar se a IES é relevante não é uma tarefa fácil, o que pode gerar dificuldade de percepção do gestor da instituição, pois ele geralmente parte do princípio de que “a sua IES é relevante”.

Faço algumas sugestões de exercício, para que o leitor saiba se sua instituição é relevante. Aponto alguns caminhos

  1. Verifique se durante o processo de formação o estudante passou por um processo de desenvolvimento pessoal, em relação a atitudes, valores sociais, ética, cuidado com a saúde, convivência com a diferença, senso de coletividade, entre outros;
  2. Observe se o estudante desenvolveu um senso de cidadania ativa, de valorização da democracia, de pertencimento, de vínculo com projetos de impacto social, de desejo de compreender a sociedade atual, entre outros;
  3. Valorize a capacidade de empregabilidade do estudante, através da formação profissional qualificada, da aquisição das sotf skllis, do conhecimento sobre a área de graduação, da formação empreendedora, da capacidade de comunicação, entre outros;
  4. Cuide da vivência memorável do estudante, ao favorecer que ele possa ter uma vida intensa de experiência no ensino superior, através de diversas atividades acadêmicas, sociais, esportivas, transcendentais, entre outras;
  5. Acompanhe a trajetória do estudante e cuide do seu sucesso, já que há ferramentas tecnológicas disponíveis para verificar engajamento, participação e desempenho do estudante. O sucesso não está somente no emprego, mas também, no envolvimento com uma série de atividades acadêmicas, como desempenho em processos de avaliação, monitoria, aconselhamentos e sugestões de carreira;   
  6. Cuide da qualidade da IES, no que se refere à organização e dinâmica dos cursos, das aulas, do perfil dos professores, dos atendimentos administrativos, do feedback às demandas estudantis e, dos resultados das avaliações do MEC;  
  7. Ofereça serviços de atendimento ao estudante, no que se refere à saúde mental, ao bem estar, à orientação profissional, entre outros.       

Ter uma boa infraestrutura, uma plataforma virtual, um projeto institucional, professores titulados e qualificados para o exercício de sua atividade são elementos básicos da IES, portando, são commodities. Oferecer cursos a R$ 159,00 ou a R$ 59,00 não é sinal de que a IES é relevante. O preço baixo pode significar conveniência. A concorrência pelo preço pode significar que a IES busca aumentar sua base de estudantes, o retorno financeiro e o acesso ao ensino superior.

O estudante irá escolher estudar em uma IES a partir de uma série de fatores. O preço interfere na escolha, mas não será o valor da mensalidade que necessariamente fidelizará o estudante. O vínculo do estudante com a IES está diretamente relacionado aos serviços prestados e à capacidade da instituição ser relevante. É preciso cuidar do aluno. É recomendável que a IES tenha em seu quadro de profissionais pessoas que são especialistas em comportamento de jovens. 

De toda forma, será o estudante que irá dar a palavra final em relação à relevância da IES. Acredito que temos problemas de desconexão entre o que é divulgado pela IES e percebido pelos estudantes. Promessas como “construa seu futuro”, “cuidamos da empregabilidade”, venha “realizar seus sonhos” precisam estar coerentes com a dinâmica da IES e com o seu projeto acadêmico.

Se na IES o aluno não é protagonista, como ela vai construir seu futuro? Se a IES que não tem programa de empregabilidade e vínculos com o setor produtivo, como irá garantir empregabilidade? Se a IES é burocrática e excessivamente tradicional, como irá realizar sonhos, em um mundo dinâmico?

Ser relevante garante a sobrevivência e a prosperidade para os próximos anos. As IES mais relevantes não são necessariamente as de elite, que possuem alunos com mais recursos financeiros, mas aquelas  capazes de cuidar do aprendizado, do sucesso, da empregabilidade, da experiência, da qualidade dos serviços, da saúde mental e bem-estar dos estudantes.           

Espero que nossas IES façam uma reflexão e busquem responder: somos uma instituição relevante? Entregamos o que prometemos? Temos coerência institucional? O fato é que as crises que estamos vivenciando requerem novos esforços e precisamos ampliar o nosso olhar sobre a dinâmica do ensino superior e fazer as coisas com mais eficiência. 

Fábio Reis: Diretor de Inovação e Redes de Cooperação do Semesp, Presidente do Consórcio Sthem Brasil, Secretário Executivo da MetaRed Brasil, Diretor de Inovação Acadêmica da Unicesumar e Professor do Unisal  

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Uma IES pode ser uma corporação e ter lucro?

                                                                          Fábio Reis

C. Raj Kumar, Vice Chancellor of O.P. Jindal Global University,   publicou o artigo “University is not suppost to be a profit-driven coorporation”, no The Indian Express. Kumar  crítica as instituições com foco no lucro. Será que de fato as IES não podem ser uma empresa com fins lucrativos? No Brasil, desde 1997, é permitido que as IES sejam organizações com fins lucrativos. No Brasil, há empresas de educação listadas na bolsa de valores.

Será que o Brasil é uma anomalia, em que o mercado do ensino superior se consolidou e os seus interesses prevaleceram? Antes de tudo, é preciso algumas considerações. A Constituição de 1988 define o ensino como livre à iniciativa privada, desde que atenda às normas de autorização e avaliação da qualidade. A LDB, em 1996, reafirma a legitimidade das instituições privadas.

O Decreto 2.306, de 1997, impulsionou o avanço das IES privadas no ensino superior, quando definiu que as mantenedoras poderiam assumir sua natureza civil ou comercial. O mesmo decreto prevê a existência de IES com fins lucrativos.

Pela legislação, as mantenedoras das IES podem ter fins lucrativos. Não há anomalias em termos legais. Raj Kumar defende que a IES não pode ter fins lucrativos e que não pode ser  uma corporação empresarial. Sou um defensor da concepção de que uma IES precisa ser organizada como uma corporação complexa e entendo que há polêmicas sobre a finalidade lucrativa da IES. Vou tratar a concepção de corporação como uma organização com finalidades específicas, que precisa de governança, planejamento, eficiência e resultados. Entendo que uma IES pode ser uma corporação, com gestão empresarial.

Para Raj Kumar, as corporações educacionais baseiam-se no lucro e no retorno do investimento, o que ele considera como legítimo. Por outro lado, uma IES, segundo ele, fundamenta-se nos princípios do bem comum, na oferta da educação, como elemento essencial para o bem-estar social, na formação para a cidadania, no conhecimento, nos fundamentos do ensino e na aprendizagem, na inclusão e nos serviços para a sociedade.

Kamur enxerga que é incompatível o desejo do lucro, o foco nas margens de EBTIDA e os elementos comerciais, com os fundamentos de uma instituição de educação, que possui valores e resultados intangíveis. Kumar argumenta que “as corporações medem a sustentabilidade em termos de lucro, o que requer maximizar receitas e minimizar custos”.

As argumentações de Kumar tem lógica e exigem reflexão. Pretendo tecer algumas considerações sobre a IES como corporação e sobre a ideia do lucro no ensino superior, criticada por Kamur.    

Uma IES é uma organização complexa, que possui diferentes áreas administrativas e acadêmicas, que precisam de gestão, planejamento com objetivos, metas e avaliações contínuas. A IES, funcionando sem os princípios da administração, perde eficiência, pode fragmentar-se em grupos de interesses corporativos e ações dispersas. A IES precisa de pessoas preparadas para exercer a governança e a gestão.

Philip Altbach defende que as “universities are complex organization and require profissional management and administration – in many ways similar to any large organization”. Altach defente que uma IES requer pessoal qualificado, inclusive para a gestão financeira. Não tenho dúvida, uma IES precisa de gestão similar a uma corporação, com resultados acadêmicos, administrativos e financeiros. 

Em relação à finalidade de lucros da IES, entendo que a educação é um bem social. Não podemos negar que a educação é de interesse público, pelo seu impacto social, pelos benefícios que proporciona aos cidadãos e ao desenvolvimento do país. Por outro lado, não dá para aceitar discursos de defesa da estatização ou do controle do Estado sobre a iniciativa privada. 

A educação tem uma função social e é livre à iniciativa privada, que por sua vez, cumpre a legislação que regula o seu funcionamento. Através da educação, os cidadãos podem assegurar o funcionamento do Estado de direito, da democracia e o desenvolvimento do país.  A iniciativa privada tem um papel essencial no Brasil, ao contribuir com a realização dos elementos indicados acima e tem um papel estratégico na ampliação do acesso. A iniciativa privada representa 75% das matrículas. O Estado não tem recursos financeiros e articulação administrativa para realizar a expansão do sistema e cumprir o Plano Nacional de Educação (2014-2024), que prevê uma taxa de escolarização líquida de 33%. Hoje temos 18%.

A finalidade lucrativa da IES é legítima, definida em lei. Hoje, o conceito de Environmental, Social and Governance avança no ensino superior. Há IES com fins lucrativos que estão em processos de incorporação dos princípios do ESG, por outro lado, são IES que geram empregos, pagam impostos e representam um importante setor da economia.  Se a corporação de educação  priorizar exclusivamente o EBTIDA em detrimento à qualidade da educação, não cumprirá o seu papel social. Confio nas IES que celebram e priorizam os bons resultados acadêmicos. O resultado do EBTIDA pode ser consequência do compromisso com a educação.  

É preciso chamar atenção para um aspecto: ter bons resultados na avaliação no MEC não significa que uma IES é melhor que a outra. É preciso ampliar e rever os indicadores de qualidade do MEC. Uma IES que ousa, que inova, que é empreendedora, que presta bons serviços para a sociedade, necessariamente não é a instituição que obtém nota máxima nas diferentes avaliações oficiais. Tenho dúvidas de se exames, como o ENADE que se tornou extremamente relevante em nosso sistema, são capazes de detectarem a qualidade, em uma perspectiva ampla, de uma IES.    

O lucro deve ser o resultado da qualidade da gestão corporativa, da inovação, da cooperação com outras IES para diminuir custos ou com outros fatores e não o contrário, como resultado da diminuição da qualidade, articulada pelos gestores de uma IES. A eficiência da gestão aliada a investimentos acadêmicos, podem sim, gerar lucro. 

Há países como o México e o Chile que impedem a existência de universidades com fins de lucro, mas sabemos que há famílias que controlam as IES privadas desses países. Elas buscam alternativas para o lucro permanecer com a família ou com a empresa gestora da IES, controlada pelos seus membros. No Brasil, famílias que possuem IES sem fins lucrativos, precisam reinvestir os resultados financeiros 100% na instituição. A lei que permite o lucro na IES tornou mais transparente a gestão do patrimônio das IES familiares.

O fato é: ter lucro sem compromisso com o valor da educação, sem compromisso social, sem compromisso com os princípios do ESG, sem compromisso com a formação de um egresso capaz de responder aos desafios da sociedade pode ser encarado como uma anomalia no sistema. Uma IES não deveria prejudicar de forma consciente e pragmática a qualidade da formação dos estudantes, para favorecer o lucro. Espero que o MEC refaça seus critérios de qualidade e que a sociedade possa identificar as IES sem  comprometimento real com a educação.

O problema não e o fato de uma IES XYX ter lucro, mas sim, não atuar em favor da boa formação de seus alunos. Uma IES alicerçada prioritariamente pelos resultados de uma planilha financeira deixará de ser uma instituição de educação. 

Admiro o empreendedorismo das famílias que foram responsáveis pela expansão do sistema de educação privada no Brasil, admiro a vocação para a educação dos mantenedores, mas ao mesmo tempo, defendo que a IES deve cumprir seu papel social e ser  vocacionada aos interesses públicos.               

Discordo de Raj Kumar e ao mesmo tempo respeito seus argumentos, mas acredito que uma IES pode ser uma corporação e ter lucro. As corporações educacionais no Brasil e as IES de modo geral, estão e estarão em constante processo de discernimento social. Em tempos de crise, de acesso à informação e de exigências dos empregadores, quem não apostar na oferta de bons serviços educacionais irá perder competitividade e diminuirá a sua base de estudantes.

Sei que muitos podem me criticar por defender que é possível uma IES ter lucro. Esta é a beleza do debate sadio. Antes de terminar, quero afirmar que as IES públicas são essenciais para o Brasil e que precisam de investimentos. Cabe ao Estado investir prioritariamente na educação pública, sem excluir o setor privado. Os setores públicos e privados são importantes, desde que tenham a educação como prioridade e boa gestão, que sejam eficientes em seus custos e socialmente compromissadas.    

Fábio Reis: Diretor de Inovação e Redes de Cooperação do Semesp, Presidente do Consórcio Sthem Brasil, Secretário Executivo da MetaRed Brasil, Diretor de Inovação Acadêmica da Unicesumar, Consultor de Inovação da Afya Educacional, Professor do Unisal e pesquisador em políticas públicas vinculado ao Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, da Universidade de Coimbra.

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COMO UMA REDE DE COOPERAÇÃO PODE TER BONS RESULTADOS?

Em 2016, o Semesp criou o projeto Redes de Cooperação. Hoje são 13 redes que reúnem 75 IES. Há diferentes níveis de maturidade das redes e de engajamento das pessoas, o que é comum em um processo de fortalecimento da cultura de cooperação.

Uma rede de cooperação tem bons resultados (troca de informações acompanhada por mudanças estratégicas, melhoria da eficiência institucional, redução de custos institucionais, entre outros) quando há confiança entre os participantes e compromisso com os seus projetos.

De modo geral, as redes do Semesp estão bem estruturadas. Todavia, hoje quero destacar a Rede 7, que se autodenominou G7 (quando foi organizada eram sete IES, de seis estados, hoje, são nove IES, de sete estados). Quais são os fatores de sucesso do G7?

  • Confiança entre os gestores. Planilhas financeiras, estratégias administrativas e mudanças acadêmicas são abertamente discutidas. Não há temor em apresentar números estratégicos;
  • Compromisso dos gestores das IES da rede com os resultados e assiduidade (em casa de falta sem justificativa, há uma multa). Eles sabem que a participação na rede precisa fazer sentido e trazer resultados. As reuniões são semanais;
  • Foi criado a figura do coordenador da rede (um gestor de uma IES participante), que implementou uma metodologia de trabalho (organização e funcionamento da reunião);
  • Discussão prévia da pauta, que é consensuada. Os tópicos da pauta são previamente definidos e durante a semana são refinados para uma melhor apresentação;
  • Busca de cooperação que traga redução de custos e melhoria da performance acadêmica e administrativa;
  • Busca de profissionalização da gestão da rede. Foi contratada uma pessoa para gerenciar a pauta e, especialmente, dar andamento às decisões tomadas na reunião. Projetos conversados e consensuados possuem continuidade;
  • Busca continua de oportunidades de cooperação.

O G7 tem uma “vida própria”, ou seja, uma agenda independente do Semesp, o que nos deixa contentes por demonstrar a maturidade da rede. A Rede Pioneira² é outra referência de boas práticas que também ganhou autonomia em sua dinâmica.

A presidente do Semesp, professora Lúcia Teixeira, tem como um dos tópicos estratégicos de sua plataforma da gestão o fortalecimento do projeto, uma continuidade de uma das prioridade da gestão do ex-presidente Hermes Ferreira Figueiredo, que apoiou sem ressalvas a criação das Redes de Cooperação. Nós que atuamos no dia a dia das redes não temos dúvidas de que o projeto irá avançar em 2021, em função das oportunidades e do foco em fortalecer e ampliar as iniciativas das redes.

Faço o convite para que busquem melhorar os resultados acadêmicos, administrativos e financeiros da IES via participação no projeto Redes de Cooperação do Semesp.