Há anos ouço sobre o poder do networking e das conexões. Se hoje estou envolvido com diferentes projetos, é porque sempre cuidei, preservei e construí pontes com pessoas de diversos lugares do mundo. Hoje, estou envolvido em projetos em reúnem mais de 1.000 IES. O networking favorece e impulsiona as conexões profissionais.
No início do mês de setembro eu estava em Cartagena das Índias, na Colômbia, para uma reunião da MetaRed TIC, projeto mantido pela Universia, com pessoas de 11 países. Logo em seguida, nós do Semesp, realizamos o FNESP, com mais de 1400 participantes, que representaram quase 300 IES e 22 estados do Brasil, mais o distrito Federal. Foi um evento de alto nível nas mesas de debate e na qualidade de sua organização e concepção. Na mesma semana organizamos também o Encontro Nacional das Redes de Cooperação, que reúne 154 IES.
No dia 24 de setembro, já estava em Mendoza, na Argentina, depois de participar de uma reunião em Brasília, no MEC), para uma reunião do que ficou conhecido como “Grupo de Cartagena”, criado em 2018, em Cartagena das Índias. O grupo reúne especialistas em ensino superior de diversos países da América Latina e dos Estados Unidos. São pessoas que já foram Ministros da Educação, que exercem funções públicas na área da educação, que ocupam cargos de liderança e que publicam livros sobre ensino superior. Uma vivência de três dias com uma experiência de networking e conexões. Rodadas de conversas temáticas e de troca de experiências para, quem sabe, finalizar nosso encontro informal com alguns projetos conjuntos. Mendoza é uma cidade que tem como marca, os bons vinhos, o que pode facilitar o diálogo e as sinergias profissionais. Sou muito grato por essas oportunidades, todavia, não escrevo o presente texto apenas para contar aonde fui ou onde estou e com quem vou me encontrar.
A mensagem é a de que é preciso estabelecer conexões, participar de redes de cooperação, aprender com a experiência do outro e dialogar com diferentes pessoas. Tenho a convicção de que as conexões nos fazem pessoas e profissionais melhores. Às vezes, pessoas talentosas estão “escondidas em seus escritórios e IES”. Sugiro, caro leitor, que você esteja aberto para criar bons vínculos profissionais. Não se esconda. Converse com pessoas que você admira, em um café, almoço ou jantar. Outra mensagem é: esteja aberto ao aprendizado, seja flexível e se distancie do dogmatismo e extremismos. Muito das minhas conquistas passam pelo meu aprendizado, via networking. Há pessoas generosas e gentis que estão sempre compromissadas com os bons projetos.
A vida me proporciona vivências agradáveis, já que trabalho no que gosto. Liderar o projeto de Redes do Semesp é um privilégio. Aliás, tenho de fazer um agradecimento especial ao GT de EAD e à Rede de Autoavaliação do Semesp, que recentemente obtiveram resultados relevantes e de impacto. Ser um dos fundadores do Consórcio STHEM, que é talvez uma das minhas maiores realizações, estar na MetaRed TIC Brasil e participar efetivamente da Realcup deixa-me realizado profissionalmente, porque na essência, são redes de cooperação.
Após o encontro em Mendoza, vou escrever sobre os aprendizados. Por aqui em Cuzco, espero fortalecer o networking e o vínculo com os bons projetos relacionados ao ensino superior.
Aprendizados em Mendoza, terra do vinho malbec.
O Malbec é um vinho equilibrado, que tem características marcantes (é razoavelmente fácil identificar um Malbec), com taninos macios, acidez moderada e aroma frutado. As características do vinho convergem com o que foi o encontro de especialistas em ensino superior, em Mendoza.
Houve harmonia entre as pessoas, diálogos ricos com informações sobre os projetos que cada um dos colegas está desenvolvendo, falas contundentes em defesa da qualidade e da inovação das IES latino-americanas e caribenhas, apresentação dos projetos liderados pelos colegas e muita conversa informal nos cafés, almoços e jantares.
Talvez os grandes insights não sejam novidade para quem está acostumado em frequentar os melhores eventos de ensino superior e as boas rodas de conversa.
O primeiro tópico que abordamos foi o da crise do modelo convencional de IES. Se de um lado, há IES consolidadas que provavelmente continuarão com modelos convencionais em sua área acadêmica e administrativa, pois possuem uma trajetória relevante, marcada por pesquisas e impacto social, do outro, há IES que buscam a inovação, que estão revendo seus currículos e procurando se mover para estarem alinhadas com os desafios contemporâneos. Há ainda, as IES que estão no “limbo”, pois não possuem um caminho definido. As IES convencionais tendem a enfrentar crises mais agudas. As que focam na inovação e entendem o mundo em que estamos vivendo, possuem chances maiores de se manterem ou serem competitivas. As que estão no limbo, a crise será maior. O que irá diferenciar as IES é o prestígio, a qualidade percebida e a capacidade de fortalecer os vínculos com a sociedade, em especial, com o setor produtivo.
Um segundo tópico abordado foi o da qualidade da oferta, dos serviços, da pesquisa e a incidência social. Em um contexto em que o mercado educacional avança, em que há uma expansão das IES de diferentes tipos, em que o cenário do ensino superior está mais complexo, não há outra solução que não seja o da qualidade efetiva. Não basta uma nota máxima no MEC, é preciso ter ações de asseguramento da qualidade internas, capazes de induzir mudanças significativas, que gerem percepção pela sociedade, que gere confiança, planejamento e investimento, que seja capaz de ir além do que os órgãos oficiais solicitam como parâmetros mínimos de qualidade. O “Grupo de Cartegena” considera que o tema da qualidade estará na pauta dos governos, que precisam criar mecanismos de supervisão.
O terceiro tópico que gostaria de destacar é o da necessidade das IES elaborarem modelos acadêmicos pautados no aprendizado dos estudantes. Ter currículos que instigam o aprendizado dos estudantes, a interdisciplinaridade, o aprendizado prático aliado ao teórico, a formação por competências, entre outros elementos, representa uma atitude lúcida. O modelo acadêmico é o coração da IES, já que supõe uma dinâmica que induz atitudes didáticas dos professores, engajamento dos estudantes, concepção de infraestrutura, entre outros fatores. Já escrevi sobre este tema, mas é incrível como as IES da América Latina e Caribe (inclusive o Brasil, obviamente) tendem à lentidão no processo de mudança, tendem a serem burocráticas em seus processos e pouco dispostas, de modo geral, ao diálogo com o setor produtivo.
Um quarto tópico que esteve na pauta foi o das redes de cooperação. Definitivamente, há uma clara percepção por parte dos gestores de IES de que é preciso participar de movimentos de cooperação. Cooperar significa estar disposto a compartilhar, compromisso com o diálogo, confiança na troca de informações e projetos. O Grupo de Cartagena entende que é preciso fortalecer os processos de cooperação na América Latina.
Por fim, no último tópico conversamos sobre o futuro do Grupo. A primeira conclusão é de que devemos manter uma agenda de diálogo e troca e experiências, pois aprendemos uns com os outros e, como estamos envolvidos com vários projetos, o aprendizado colabora com nossas decisões e direcionamento dos projetos. Projetamos também fazer publicações em conjunto.
É preciso destacar também que realizamos um seminário na Universidade de Cuyo, em Mendoza. Foi um momento rico de diálogo com professores da universidade e de apresentação dos projetos e pesquisas desenvolvidas pelas pessoas que compõe o Grupo de Cartagena.
Foi um privilégio estar na terra do vinho Malbec e conversar com pessoas relevantes, que admiro e leio. A vida nos proporciona boas oportunidades que não podemos perder. Agradeço ao Semesp e ao Consórico Sthem pelas oportunidades de conexões. O próximo encontro do Grupo de Cartagena será em Salvador, Bahia, no segundo semestre de 2026.