Uma solução para inovação acadêmica

Fábio Garcia Reis

Começou a ser implantado no Brasil, no último mês de maio, um projeto educacional inédito, alicerçado na experiência de inovação acadêmica da Universidade de Harvard. O projeto, que terá a duração de três anos (2014-2016), oferece uma oportunidade rara de capacitação de professores para a utilização de metodologias e tecnologias de ensino que favoreçam o aprendizado e contribuam para a preparação dos alunos em relação às necessidades do mercado. Alem de ajudar o país a romper com algumas convenções ultrapassadas sobre o ensino superior, a iniciativa deverá provocar uma mudança na postura de professores e gestores educacionais e intensificar sua cooperação com o setor produtivo.

O projeto nasceu em agosto de 2013 quando a LASPAU — Academic and Programs for the Américas, organização filiada à Universidade de Harvard, propôs a formação de um consórcio de instituições brasileiras de ensino superior, privadas e públicas, para atuar nas áreas de Ciência, Tecnologia, Humanidades, Engenharia e Matemática (STHEM, na sigla em inglês). O consórcio, que inicialmente teria como base para a formação a cidade de Cambridge, nos EUA, passou a ter como sede a unidade de Lorena do Centro Universitário Salesiano de São Paulo. Com a mudança para o Brasil, o investimento, que estava orçado em torno de US$ 400 mil, será de aproximadamente US$ 180 mil em 2014.

Uma das convenções sobre educação superior que o consórcio STHEM Brasil ajudará a superar é a ideia de que “instituições de ensino superior privadas e públicas pouco dialogam”. O consórcio reúne 22 instituições dos dois tipos, todas envolvidas num processo de cooperação permanente, conscientes de que a má qualidade não reside no fato de uma IES ser pública ou privada.

Outra convenção que não se sustenta é a de que “consórcios não são viáveis no Brasil”. A iniciativa comprova que é possível criar sinergias, relações de confiança e redes de aprendizado coletivo para obter resultados e, ao mesmo tempo, diminuir custos de investimentos.

Cai por terra, também, a ideia de que “gestores acadêmicos, especialmente das IES privadas, não investem em pessoas”. O investimento direto do consórcio na formação de professores em 2104 será de US$ 152 mil, mais US$ 30 mil com hotel, transporte, alimentação e material didático, sem envolver recursos da CAPES ou de outra agência governamental.

Convencionou-se, também, que “não há interesse pela inovação acadêmica e os professores não querem mudar sua postura”. Pois o consórcio exige um efeito multiplicador: cada professor que passar pelo processo de formação deverá multiplicar seu aprendizado para no mínimo três e no máximo cinco docentes da sua instituição.

Outra ideia pré-concebida refere-se à “dificuldade de diálogo entre o meio acadêmico e o setor produtivo”. A gestão do consórcio será feita por um comitê com a participação de empresas como Gerdau, Liebherr, Comil e AGC, e a meta é captar no mínimo três projetos acadêmicos que atendam às demandas das empresas.

Há boas referências de iniciativas semelhantes em diferentes lugares do mundo. É o caso do governo dos EUA, que em 2015 vai investir US$ 170 milhões em formação de professores e inovação acadêmica para atuar nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, ou seja, o mesmo conjunto
de áreas de conhecimento STEM, mais Humanidades, que foi incluída na formação do consórcio no Brasil.

No mesmo sentido, a OCDE publicou em 2013 um relatório sobre uma iniciativa desenvolvida pela empresa HP para organização de uma rede internacional no campo das áreas STEM, com a participação de 43 instituições públicas e privadas. Foram financiados 50 projetos de 15 diferentes países, com um investimento total de US$ 158 mil, e os resultados foram excelentes.

Está mais que evidente a necessidade urgente de projetos consistentes para o Brasil melhorar sua educação através da inovação acadêmica. O Brasil ficou em 589 lugar em Matemática e 59ç em Ciências no exame do Pisa de 2012, em um ranking que incluía 65 países. A formação de consórcios como o STHEM Brasil representa uma importante solução no campo da inovação acadêmica para o país começar a deixar a lamentável posição que ocupa no cenário educacional mundial.

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