Ideias para teclar “reiniciar” e experimentar algo diferente na academia.

Fábio José Garcia dos Reis

Estamos acostumados a assistir a filmes sobre o futuro da vida em sociedade. É comum os filmes mostrarem catástrofes, guerras, falta de água e diversos outros problemas. Há também filmes que apresentam as maravilhas das tecnologias. É muito provável que as tecnologias modifiquem nossos hábitos.

Como professor e atualmente, diretor de uma Unidade do UNISAL (Lorena), preocupo-me com o futuro do ensino. Como será a escola? Que tipo de mudança teremos em nossa concepção de aula? Como serão as nossas salas de aula? Qual será o papel do professor? Tenho certeza de que há experiências interessantes no mundo, que servem de parâmetro para nossas projeções.

O “The Chronicle of Higher Education” publicou um livro com o título “Rebooting Academy”, editados por Jeffrey R. Young e Tim McCormick. As análises dos textos são instigantes. Os autores propõem que repensemos o que estamos fazendo em nossas escolas. Eles sugerem que apertemos a tecla reiniciar, para superarmos o modelo tradicional (aquilo que não muda e não se adapta ao novos tempos) e iniciemos a fase de “disruption”.

A primeira questão do livro é sobre o acesso rápido e fácil à informação. O editores entendem que há mecanismos que facilitam a interatividade e as conexões, mas que ainda são pouco utilizados em nossas escolas. A internet (de modo geral), o Google, o YouTube, o Facebook e o Twitter não são vistos como aliados pelos gestores das escolas e pelos professores.

A internet é entendida como mecanismo de busca de informação, que permite o acesso a conteúdos instigantes que, geralmente, não estão nos livros. Os ambientes virtuais também são vistos como ferramentas para o aprendizado, já que permitem a formação de comunidades abertas e colaborativas. Os editores citam a contribuição do Google Book e o Google Scholar, que facilitam o acesso à pesquisa e à leitura.

No livro há vários exemplos que demonstram escolas que instigam os professores a utilizarem o facebook e o twitter como ferramentas de ensino. O texto cita o caso de documentários e trechos de filmes, que podem ser encontrados no youtube. O incentivo ao aprendizado virtual é uma ferramenta, que é valorizada por diferentes IES. Como professor de história acredito que ainda preferimos o nosso longo discurso e pouco utilizamos a tecnologia.
É consenso entre os autores do livro que o desenvolvimento de softwares educacionais e games serão comuns no meio acadêmico. Realidades virtuais serão utilizadas para ensinar temas ambientais ou tecnológicos. Da mesma forma, os nossos estudantes serão estimulados a aprender via jogos de games.
 
Assim como há softwares que simulam a dinâmica de uma empresa, da bolsa de valores ou de processos de desmatamento em florestas, haverá diversos outros games. Nossos alunos poderão criar um avatar, para participar de um ambiente virtual de aprendizado.

O livro cita o exemplo da Western Governors University (www.wgu.edu), que foi criada com o apoio formal de 19 diferentes governadores de Estados dos Estados Unidos. A Universidade possui 40 mil estudantes dos 50 Estados do país. A instituição que tem uma taxa de retenção acima dos 70%, declara seu compromisso com o rigor acadêmico, com a formação por competências e com o foco na formação de pessoas, conforme a demanda das indústrias.

A WGU utiliza-se das ferramentas da internet e é uma IES totalmente virtual. A instituição preocupa-se com a formação e o desempenho dos seus professores e tutores. As “classes virtuais” são interativas, permitem o aprendizado colaborativo entre os estudantes. Os professores são estimulados a organizarem blogs de discussão dos temas de interesse dos estudantes.

A universidade permite que os alunos constituam sua própria matriz curricular, ou seja, o estudante pode antecipar seu aprendizado conforme o ritmo de seus estudos e resultados nos processos de avaliação.
O livro também trata do uso cada vez mais comum de tablets, telefones celulares, e-books, bibliotecas digitais, impressoras 3D e uso de informações digitais  (“big data”), para gerenciar a instituição, qualificar a formação dos estudantes e permitir uma série de informações para a escola e para os próprios estudantes.

Se ainda hoje nossos alunos sentam-se em fileiras, se ainda utilizamos frequentemente o “quadro negro ou a lousa” para escrever fórmulas ou para “passar a matéria”, talvez estejamos reproduzindo um tipo de ambiente de ensino típico dos séculos XIX e XX.

Se como professores falamos durante trinta minutos ou uma hora, talvez não estejamos contribuindo com a formação de nossos estudantes. Privilegiar a fala e a memorização, não é o melhor caminho para colaborarmos com o aprendizado dos estudantes.

Professores que não preparam as aulas, que não instigam os alunos para a curiosidade e para a pesquisa e que não favorecem a interação, provavelmente, terão dificuldade de se legitimarem perante os alunos. Os melhores exemplos de aprendizado demonstram que é preciso estimular a aplicação de metodologias ativas de ensino e o uso da tecnologia, além de valorizar a cooperação e a interdisciplinaridade.

Há o risco de nossos alunos preferirem um bom vídeo da Khan Academy, de aproximadamente 15 minutos, a aula do professor. 

Os textos do livro, em diversos momentos, reafirmam a necessidade de bons professores e tutores. Os editores deixam claro que a escola está em processo de mudança, em função da dinâmica da sociedade, do perfil dos estudantes, do acesso à informação e do avanço da tecnologia. O uso da tecnologia poderá favorecer a sustentabilidade da IES. 

A IES do futuro não precisa necessariamente gastar “rios de dinheiro”, para utilizar todas as tecnologias disponíveis. Podemos repensar a reorganização de nossas salas de aulas com poucos recursos, utilizando a criatividade e a experiência.

O fato é que precisamos começar o processo de ruptura, antes que sejamos “engolidos” pela velocidade das mudanças. Não podemos permitir que nossas escolas tornem-se obsoletas perante as novas dinâmicas do ensino. Podemos construir o nosso futuro, com rigor acadêmico, avaliação e seriedade do projeto acadêmico. Que possamos apertar a tecla reiniciar para recomeçarmos novos processos na academia. Ainda dá tempo.

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