Os segredos da Coreia do Sul

Fábio José Garcia dos Reis*

Há anos a Coreia do Sul é referência mundial em educação. No Brasil, sempre utilizamos o exemplo da Coreia como país que investiu de forma séria na educação e alcançou altos índices de desenvolvimento econômico. Há uma estrita relação entre educação e economia, a partir da década de 1980. O interessante é que o país esteve sob o domínio japonês entre os anos de 1910 a 1945 e, entre 1950 a 1953 enfrentou a Guerra da Coreia. É fascinante pensar a maneira pela qual o país se reestruturou e assumiu o topo nos rankings mundiais de educação em um período de tempo tão curto.

Alguns questionamentos sempre aparecem em debates sobre a educação superior da Coreia do Sul: como um país agrícola, destruído pelas guerras, conseguiu entrar para o clube dos países desenvolvidos e superar o PIB brasileiro? Como a Coreia do Sul, em pouco tempo constituiu empresas globais, como Samsung, LG, Posco e Hyundai?

Para conhecer os segredos da Coreia do Sul, o SEMESP organizou a 8º. Missão Técnica Internacional, entre os dias 04 a 15 de maio. A delegação contou com participação de trinta e seis pessoas interessadas em descobrir os segredos de um país encantador, que transformou a economia por meio da educação e que possui uma tradição cultural milenar. O aprendizado possibilitou novos olhares sobre a educação e perspectivas de cooperação com a Coreia. A Missão contou com o apoio da Korean Council for University Education (KCUE), da Embaixada do Brasil e da Associação Brasil-Coreia.

Começamos a descobrir os segredos da Coreia do Sul quando iniciamos a organização da Missão e ouvimos em diversos momentos a expressão “stress pela educação”, que consiste em uma pesada exigência para que os jovens busquem os melhores resultados nos processo de avaliação durante a sua vida escolar, o que pode ser exagerado do ponto de vista da cultura brasileira.

O país está vivenciando uma efervescência cultural e, atualmente, há estímulos para que ocorram mudanças no comportamento dos jovens que buscam alternativas de vida social além da escola, mas sem nunca deixar de valorizar a educação, considerada fator estratégico e fundamental para o desenvolvimento do país. Talvez, o cantor Psi e a música Gangnan Style sejam exemplos de mudanças.

Para Beatriz Eckert-Hoff, Reitora da UDF de Brasília, do Grupo Cruzeiro do Sul, “a visita de estudos na Coreia do Sul foi de extrema importância para nós educadores e gestores do ensino superior do Brasil”. Para ela, “a educação como força motriz, a valorização do docente e o foco nos estudos corre nas veias de todo sul coreano”. As afirmações demonstram a importância do benchmarking, prática não comum entre os gestores de instituições de ensino superior (IES) brasileiras.

Em Seul, visitamos a Apgujeong High School, vencedora de um prêmio nacional em função de seu modelo de currículo, que oferece um leque de atividades extracurriculares nas áreas de exatas, humanidades e de comunicação. As aulas normalmente tem uma carga horária extensa, das 7h30 às 16h e, após as aulas, acontecem às atividades extracurriculares, entre 17h e 21h, mas o tempo de permanência na escola é considerado comum. Neste colégio, tivemos a oportunidade de conversar com diretores, professores, estudantes e algumas mães que acompanharam a visita, o que tornou o encontro ainda mais rico.

Professores bem formados e valorizados, participação das famílias na formação dos filhos, tempo de dedicação dos estudantes, base curricular bem definida e atividades extracurriculares, são alguns dos fatores que explicam o sucesso da Coreia. O país ocupa a 3º colocação no ranking do Pisa, divulgado em 2015.

A delegação do SEMESP visitou também a Hyper Academic, uma conceituada ‘Hagwon’, que funcionam como cursinho preparatório para o vestibular. Nestas escolas os estudantes permanecem, em média, seis horas por dia e há uma disputa intensa pelas vagas das melhores IES.

É importante conhecer alguns dados para entender o avanço do país:

  • Em 2014, a Coreia do Sul possuía 433 IES, com 3.667.747 estudantes matriculados no ensino superior;
  • Em 1950, passou para pouco mais de 11 mil estudantes;
  • 75% dos jovens que concluem o ensino médio se matriculam no ensino superior
  • O governo gasta 8% do PIB em educação (OCDE, 2010);
  • 85% das IES são privadas e sem fins lucrativos e o maior gasto com o ensino superior está com a iniciativa privada.

Outro ponto interessante são os diferentes tipos de Instituições existentes na Coreia do Sul: universidades, universidades tecnológicas, universidades de educação, “cyber universities”, faculdades, faculdades vocacionais e “junior colleges”.

A diversificação do sistema representa uma diferença considerável, quando comparamos com o Brasil. Aqui, o governo entende que as universidades precisam ser uma instituição de pesquisa, com programas de mestrado e doutorados estruturados. Mas será que todas as universidades precisam ter o mesmo perfil? Talvez seja o momento de repensar o nosso modelo de universidades.

É interessante constatar que na Coreia do Sul, o Korean Council for University Education - KCUE funciona como uma agência de acreditação do Ministério da Educação, responsável por avaliar universidades. A tarefa de punir ou tomar alguma decisão sobre os resultados das avaliações não cabe ao conselho, mas sim ao Ministério da Educação. No Brasil, temos que superar amarras ideológicas e propor reformas educacionais que instiguem a competitividade das IES e do próprio sistema de educação superior. A descentralização e a revisão dos processos de avaliação podem ser benéficas para o país e a Coreia do Sul pode nos servir de referência neste processo de transformação.

O Embaixador do Brasil na Coreia do Sul, Luis Fernando Serra, que já atou na África, Europa e Ásia, afirmou que “não há milagre para um crescimento econômico sem investimento em educação, considerando que os recursos humanos são a maior riqueza que um país pode ter”. Para ele, este é um dos segredos da Coreia, o país investe na economia criativa, para formar a próxima geração de talentos.

O Vice Ministro da Educação, Seong Geun Bae, afirmou que o país está vivenciando um processo de reformas no currículo do ensino superior para induzir as universidades a implementarem disciplinas nos cursos de graduação, que fomentem a criatividade e a área das humanidades.

Seong Bae, ressaltou que é prioridade do governo fomentar a cooperação entre as IES e as empresas, na produção de novos conhecimentos, em um mundo cada vez mais criativo e digital. Na Coreia, não há melindres das IES públicas e privadas em cooperar com o mundo produtivo. Não há contradição entre a concepção da educação como bem público e os negócios com o setor privado.

As IES são estimuladas a criarem empresas, a gerarem patentes e a estabelecerem negócios com os diversos setores da sociedade. Para o Diretor da ESAMC de Uberlândia, Adriano G. Novaes, “há um olhar dos coreanos para o futuro, que pode ser traduzido, por exemplo, nos currículos que estão sendo totalmente alinhados à nova economia criativa, às humanidades e ao desenvolvimento do empreendedorismo”.

É fascinante ver como o país consegue equilibrar a tradição confucionista com a contemporaneidade das IES. A Handong University, por exemplo, tem em seu DNA os princípios de Confúcio - Honestidade, ética, compromisso com a sociedade, coletividade e justiça. Para o professor Dae-Sink Kim, de Handong, as empresas globais buscam pessoas com estes valores, que ele considera um pilar para a competitividade da universidade.

No Brasil, temos dificuldades de formar pessoas com os princípios indicados acima. Aliás, muitas IES possuem dificuldade de definir o DNA institucional ao não terem clareza da missão, dos valores e dos objetivos institucionais. A Postech Univesity recebeu investimentos da POSCO, empresa multinacional, mas não abdicou de seus ensinamentos confucionistas, base importante na formação de pessoas.

A Hanyang University é um exemplo da capacidade dos coreanos em aliarem os princípios do confucionismo com diálogo com o mundo produtivo. Eles possuem centros de estudo do confucionismo, e ao mesmo tempo, fomentam a cultura empreendedora por meio de um centro de empreendedorismo, com conexões globais. Através do centro, eles apoiam as Startups e um modelo de ensino e aprendizagem pautado no “hands on”, onde o aluno aprende fazendo. Em diversos momentos, ouvimos que as Startups são o futuro da Coreia do Sul.

No Brasil, de modo geral, nossas IES ainda estão tentando entender o significado de Startups, e poucas IES brasileiras incentivam a prática do “hands on”. A Hanyang University criou um setor chamado “Idea Factory”, um espaço de criatividade, experimentação das ideias, de estudos de novas tecnologias, de incentivo as Startups e de comercialização de produtos.

A Sungkyunkwan University (SKKU) foi criada em 1398 e incorporada ao grupo Samsung em 1996. A possibilidade de uma empresa adquirir uma universidade traz benefícios inimagináveis para ambas as partes, a cooperação empresa/IES é recorrente e há uma relação de confiança, com projetos muito bem definidos. Neste caso, por exemplo, a empresa não tem o controle do Conselho de Administração, o que significa que não há uma interferência direta da na dinâmica da universidade. Por outro lado, a Samsung pode recrutar talentos, desenvolver projetos de produção de tecnologia e desafiar os estudantes com problemas demandados da empresa.

No último dia, Soleiman Dias, um brasileiro que ocupa a diretoria de um colégio internacional, deixou o grupo perplexo com o roteiro desenhado. Primeiro, ele nos apresentou Songdo, conhecida como a cidade do futuro. Ficamos encantados com o que foco e dedicação podem fazer. A cidade, de apenas oito anos, é totalmente planejada, estruturada e sustentável.

Para Novaes, a cidade chama atenção porque “os coreanos já criaram a própria cidade do futuro, com lixo subterrâneo por sucção, geração de energia solar e de energia gerada pelo lixo da cidade, integração total das vias com ciclovias e metrôs e tecnologia sustentável para tudo. Parece sonho, mas já vivem nesta realidade mais de 100 mil habitantes”.

Em seguida, Soleiman, levou o grupo para conhecer a escola onde ele atua como diretor, a Escola Internacional de Chardwick, e o grupo ficou ainda mais perplexo com a capacidade dos sul coreanos de se superar e oferecer educação de qualidade.

Para Vicente Otávio M. de Resendo CEO do Instituto Core, a Charwick é um modelo de escola de referência global, especialmente, pela oferta de atividades extracurriculares, o modelo de ensino, que prioriza, por exemplo, a aplicação do design thinking, as atividades práticas como robótica e os diversos projetos ‘hands on’, pela capacitação de professores, inclusive das escolas públicas coreanas (a escolas oferece capacitação para professores de outras escolas) e pelas as conexões globais.

O governo Sul Coreano criou em Songdo, um complexo de educação superior que visa atrair dez universidades internacionais que estejam entre as melhores do mundo, nos rankings internacionais. A ideia é que estas dez universidades de ponta compartilhem este campus global e que cada uma delas atraia dez mil alunos. Até o momento, quatro grandes universidades já estão instaladas em Songdo, dentre elas a Utah University, que tivemos a oportunidade de conhecer em detalhes. Os alunos desta instituição vêm de diversos países e estudam três anos em Songdo e um ano em Utah.

Novaes sintetizou o nosso aprendizado da 8º. Missão, ao afirmar que o “país foi devastado por guerras violentas e que catapultou seu desenvolvimento colocando como pilar mestre, a educação”. Entre os segredos do país podemos elencar a seriedade da política do governo e os planos de educação bem definidos. Eckert-Hoff constata que “tudo gira em torno da criatividade e do pensamento coletivo, sempre projetando melhorar a qualidade de vida das pessoas”. Durante a viagem, pouco a pouco nós entendemos o real significado de uma Pátria Educadora.

O SEMESP, por meio da 8º Missão Internacional, atingiu seu objetivo de proporcionar o aprendizado aos gestores de IES com as melhores referências mundiais de educação superior, para que cada um deles possa implementar boas práticas acadêmicas e administrativas em suas instituições e colaborar com a melhoria do sistema de educação superior do Brasil.

Em breve, o SEMESP anunciará o destino da 9º. Missão Técnica Internacional, que ocorrerá em maio de 2017.

* Diretor de Inovação Acadêmica e Rede de Cooperação do SEMESP e professor do UNISAL/Lorena.


 

O artigo contou com a colaboração de Renata Favaron, Gerente de Marketing do SEMESP.

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