Líderes

Fábio José Garcia dos Reis 

Comecei a ler o livro “Learning and teaching in higher education”.  Durante um intervalo da leitura, pensei no professor como líder, já que a discussão central é sobre o professor e sobre o aprendizado do estudante. Lembrei-me de algumas leituras recentes de artigos do jornal Folha de São Paulo, que me remetem ao perfil do líder. Aprendi que os líderes se diferem dos chefes. Parei a leitura do livro e comecei a pensar nas diferenças entre ambos e a escrever o presente texto.

O perfil do líder foi inspirado nos artigos da Folha de São Paulo; o do chefe, em lembranças de leituras de diversos textos.  O chefe, em minhas lembranças, carrega uma atitude negativa, quase que prejudicial aos seus colaboradores. O texto a seguir é recheado de opiniões que podem ser contestadas e servem para provocar a reflexão das pessoas que possuem funções de liderança. 

Nizan Guanaes escreveu um belo artigo na FOLHA, no dia 17 de março. O título foi “Liderar na crise”. Guanaes fez várias indicações sobre o perfil do líder. Eu acredito em todas as características indicadas por ele. Ele afirma que as empresas não precisam de chefes, mas de líderes. Para mim, os chefes impõem a legitimidade pelo poder, pelo cargo e não pela capacidade de conquistar corações e mentes. 

Guanaes recomenda a leitura de biografia dos grandes líderes. Li a biografia de Frei Caneca e tornei-me seu fã. Na história, não trabalhamos com hipóteses, mas o Brasil estaria melhor se um dos protagonistas do processo de independência fosse Frei Caneca e não José Bonifácio. Gosto de ler sobre Jorge Paulo Lemann e sobre Carlos Ghosn. São líderes que me inspiram, mesmo que tenham perfis diferentes. Na educação superior, a ousadia e o estilo de Daniel Castanho, do Grupo Ânima, despertou meu interesse em conhecê-lo. Tive a oportunidade de conversar com o Daniel algumas vezes. Ele é ousado e sabe formar times engajados.  

Líderes possuem ideias, inspiram, deixam um legado, erram, reconhecem o erro e tentam novamente. Chefes, geralmente, possuem dificuldade de relacionamento com seus pares e com as pessoas que estão sob seu comando, não inspiram confiança e não formam times articulados. Acredito que os líderes e os intraempreendedores possuem uma enorme dificuldade de relacionamento com os chefes.  

Como afirma Guanaes, o líder é aquele que serve, é aquele que é exemplo para seus colaboradores. Será que ainda temos empresas que preferem manter em função de comando e de responsabilidade de decisões estratégicas pessoas que não são exemplo para seus colaboradores? O líder faz tudo aquilo que defende em seus discurso e faz o que pede para as pessoas fazerem. Um líder não pode criticar a fofoca e alimentá-la.

Guanaes está totalmente correto ao afirmar que as empresas que querem crescer e prosperar precisam de líderes de verdade, de pessoas que entendem os “clientes”, o ambiente em que atuam e que possuem visão de futuro. Para ele, são os líderes que constroem as empresas líderes. Ele tem uma citação interessante: “Darwin diz que as espécies que sobrevivem não são as mais fortes, mas sim as que mais rapidamente se adaptam a novas condições”.

Chefes possuem dificuldade de aceitar as boas ideias, geralmente são orgulhosos e temem perder o status.  Guanaes tem outra citação relevante: “enquanto outros choram, eu vendo lenço”. Chefes não vendem lenço. Eles, geralmente, falam muito das dificuldades. Às vezes, o erro do outro o torna mais forte, pois ele constrói o seu poder e seu discurso pomposo com o erro do outro. 

Eu atuo na área de educação superior e fico incomodado com as pessoas que permanentemente criticam a burocracia, o atraso dos repasses de verba, o perfil dos professores (eu fico pensando – o que você já fez para colaborar com a mudança do perfil?) e dos estudantes, o processo de avaliação do governo, o ENADE, a concorrência, enfim, todas as “mazelas” do sistema de educação. Eu prefiro vender lenços.

O vendedor de lenços não é ser um sonhador (os chefes adoram falar que os empreendedores são sonhadores e vivem no mundo da lua). Como afirma Guanaes, é preciso buscar soluções, suar, ser criativo, contornar as adversidades, reconhecer os erros e engajar as pessoas. 

No dia 19 de abril, a FOLHA publicou um artigo de Sabine Righett, com o título “Ação do diretor eleva nota de escola pública em SP”. O texto fala da atitude do diretor Wilson Neres de Andrade, diretor da Escola Técnica de Tiquatira, que fica na Penha, na zona leste da capital. Eu não o conheço, mas fiquei encantado com suas atitudes. Ele é um líder que inspira, que engaja e que possui soluções. Precisamos de mais “wilsons”, em nossas escolas. Ele vende lenço.

Ele engajou os professores, os estudantes e a sociedade, em uma “pequena revolução”. A escola recebe R$ 4.800.00 do governo estadual para fazer reformas e cuidar da infraestrutura, o que não é suficiente para o sonho de todos que estão na instituição. A escola, através do diretor, foi atrás de doações e as conseguiu. Por exemplo, o laboratório de Química ganhou o selo de qualidade do Conselho Regional de Química. 

Em relação ao ENEM, a escola atingiu a média de 577 pontos e avançou 2.000 posições no ranking nacional. Imaginem o que está por vir. Professores que não se adaptam ao estilo da escola preferem não permanecer. O diretor gostaria de remunerar melhor os professores e, inclusive, premiar os melhores. Wilson defende a meritocracia. Ele é um líder que está transformando uma escola.

Professores são líderes e precisam atuar como líderes. Cabe a eles engajarem os estudantes para o aprendizado. Diretores são líderes que precisam fazer pequenas e contínuas revoluções nas escolas. Gestores de IES são líderes que precisam manter uma atitude coerente e inspirar uma série de outros líderes, para tornar a instituição competitiva do ponto de vista acadêmico e administrativo e coerente com a missão e a identidade institucional.

Uma vez, o professor Elcio H. Santos, que hoje coordena o curso de Administração do UNISAL/Lorena, disse-me que a troca do chefe pelo líder precisa ser um desejo das organizações e que as atitudes dos líderes não são para agradar a todos, pois são gestores e precisam tomar as melhores decisões para a organização. 

Elcio, que fez um MBA sobre Gestão Universitária e fez um belo trabalho sobre liderança, também disse-me que “um líder sozinho não faz um verão, pois precisa engajar as pessoas e formar times compromissados com a missão institucional”. Para Elcio, “o líder supera o chefe, no conhecimento, na capacidade de relacionamento humano, na capacidade de inovar, no diálogo com as pessoas e na presença da dinâmica da organização”. 

Tudo isso parece ser fácil. Talvez, nem sempre tenhamos um líder ideal em nossas instituições. O importante é a vontade das pessoas aprenderem constantemente. Reconhecer os erros é uma virtude. Sejamos cada vez mais líderes e menos chefes. 

Uma sugestão: olhemos sempre para o espelho e façamos autoavaliações. 

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