Blended Learning / Ensino Híbrido

Fábio José Garcia dos Reis

O SEMESP vai lançar, em breve, uma pesquisa realizada com professores e gestores sobre blended learning. A iniciativa do SEMESP é bem-vinda, pois, cada vez mais utilizamos o termo em debates, artigos e conversas informais. É preciso que tenhamos clareza sobre o significado do termo, sobre o seu impacto e sobre como implementá-lo em nossas instituições, se for o caso.

É comum utilizamos o termo em inglês (blended learning), em função das pesquisas, experiência e influência das universidades norte-americanas, nos diversos sistemas de educação superior do mundo. Portanto, o uso do termo em inglês não é um caso brasileiro, muito menos representa um neocolonialismo. Estamos em um mundo em rede, em que nossas IES estão construindo processos de cooperação internacional. 

Entendo, de uma forma simples, que blended learning remete-nos à proposta de um ensino misturado, em que combinamos diferentes formas de ensino e aprendizagem, em que há uma base consistente de apoio de tecnologia. Essa modalidade supõe aprendizagem ativa. 

No Brasil, utilizamos o termo ensino híbrido. A proposta é  aproveitarmos  o melhor da educação presencial e da educação online. O site Porvir.org, desde 2012, tem tratado do tema de forma contínua. Em fevereiro de 2014, o site publicou uma entrevista com Michael Horn, do Clayton Christensen Institute. O título da entrevista foi “Ensino Híbrido é o único jeito de transformar a educação”. Sugiro a leitura, pois o ensino híbrido poderá trazer um bom impacto para nossas IES.

Em um relatório sobre ensino híbrido, escrito por Clayton Christensen, Michael Horn e Heather Staker, publicado pela Fundação Lemann e Instituto Península, os autores afirmam que “a solução do ensino híbrido provavelmente será o modelo dominante de educação dos Estados Unidos no futuro”. Tenho dúvidas se essa afirmação vale integralmente para o Brasil, em função das carências de tecnologia em nossas instituições de ensino, dos problemas de acesso à internet no interior do Brasil, de uma relativa resistência cultural e de um possível despreparo de gestores, professores e estudantes para utilizarem o ensino híbrido em sua totalidade.   

Em um evento recente, organizado pela Fundação Lemann, em parceira com o Instituto Península, o professor José Valente da Unicamp afirmou que há muita confusão em relação ao tema e ao seu significado. Para o professor Valente, há IES  “fazendo salsicha”, em que tudo se tornou ensino híbrido. 

Há pessoas que se consideram os “donos do tema”. Em um outro evento, durante o debate, ouvi uma afirmação que era mais ou menos assim:  “blended lerning não é algo novo no Brasil e a novidade agora é fazer um chat ou colocar vídeos e textos no moodle, portanto, não há novidade, pois já fazemos isso há anos”.  Sim, acredito que fazemos isso desde a década de 1980.

É preciso reconhecer que a expansão do sistema educacional do Brasil IES é recente e que estamos em uma fase em que a maturidade do sistema se intensifica. Há temas que estão na pauta em função de uma “nova perspectiva” do sistema educacional.

Eu gosto dos textos de Maurício Garcia (DeVry Brasil). Ele  afirma que estamos na terceira onda do ensino superior, que é uma fase de investimento na atividade fim, de foco no aprendizado, de foco na qualidade da oferta dos serviços educacionais. Alguém pode afirmar –  “o foco do ensino sempre foi a aprendizagem. Sim, sempre foi, mas vivenciamos um momento único de discussão sobre o tema. Antes eram pesquisadores e pedagogos que falavam e escreviam sobre o tema. Agora há um despertar dos professores de diferentes áreas e, principalmente, dos gestores de IES sobre a importância do ensino híbrido.

Preocupa-me reações de pessoas que não conhecem a dinâmica das discussões sobre o ensino híbrido ou desconhecem a forma como as instituições estão abordando o tema. Ouvi de um professor que não é da USP, algo como “se a USP ou outras IES relevantes ficarem paradas três anos, ainda continuarão sendo as melhores do Brasil”. Não concordo com essa afirmação. 

O mundo e, portanto, os sistemas de educação são dinâmicos. IES que são referência de qualidade hoje, caso se sentem no “trono do prestígio”, podem em pouco tempo serem destituídas por IES dinâmicas e sintonizadas com os melhores parâmetros do século XXI.

A professora Maria Aparecida Felix do Amaral, do UNISAL/Lorena sempre fez sérias críticas à petulância dos docentes que não querem continuar seu aprendizado. Sejamos abertos aos novos aprendizados e ao diálogo. Tenhamos propostas concretas, que inspirem a nossa IES a embarcar para o futuro. Não façamos apenas discursos e não demonstremos experiências que deram certo há anos. Por exemplo, um projeto de EAD da década de 1990, não pode ser o mesmo de 2015.

Ensino híbrido não significa o simples uso do ambiente virtual, não é um modelo em que o professor coloca vídeos e leituras na internet ou promove chats, não é algo que substitui o ensino presencial. 

Ensino híbrido supõe estrutura e organização. O ensino híbrido é um caminho para os estudantes terem mais responsabilidade pelo seu aprendizado, é uma forma em que se intensifica a interação e a cooperação entre o professor mediador e os estudantes e entre os próprios estudantes. É um forma de ensino que supõe uma boa plataforma tecnológica e uso intensivo de tecnologias que colaboram com a aprendizagem. 

O aprendizado presencial, no ensino híbrido, não ocorre de forma convencional, em que os alunos estão sentados em fileiras anotando o que está na lousa. O professor não pode ficar “falando” na frente da lousa e dos estudantes. É uma forma de ensino que pode ocorrer, em diferentes espaços de aprendizagem, que vão além da sala de aula. 

Espero que deixemos nossos pré-conceitos sobre o ensino híbrido. Ninguém terá um bom projeto se não estudar o tema e se não conhecer as melhores experiências. IES que pretendem começar um projeto de EAD ou de ensino híbrido (ou de qualquer outra iniciativa), sem um bom planejamento, não terá sucesso em sua empreitada.

Até para criticar o ensino híbrido precisamos saber o seu significado e conhecer as boas experiências. Acredito que a pesquisa a ser divulgada pelo SEMESP trará uma boa fotografia da situação do ensino híbrido. Proponho um desafio – vamos conhecer o tema (sem uma postura soberba – eu sei e o outro não) e verificar a sua viabilidade em nossas instituições. Eu li o livro “A Quinta Disciplina”, de Peter Senge, por indicação do salesiano Pe. Carlos Garulo. Aprendi que as organizações mais competitivas serão aquelas que aprendem constantemente, inclusive com seus próprios erros.

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