As organizações e o círculo virtuoso

Fábio José Garcia dos Reis

Em conversas recentes com pessoas que são dirigentes de empresas e de IES, percebo que é recorrente a citação da expressão círculo virtuoso. Os dirigentes reconhecem que o sucesso de uma organização tem como origem um processo e um ambiente que geram o círculo virtuoso, que é criado por  um conjunto de ações e atitudes de pessoas, em um contexto favorável.

Na literatura sobre ensino superior, gestores e intelectuais como Simon Schwartzman e Fábio Mesquiati (Brasil), José Joaquim Brunner (Chile), Cláudio Rama (Uruguai), Carmem Guadilha (Venezuela), Enrique Orozco (Colômbia), Philip Altbach, Liz Reisberg Michael James, Martin Carnoy, Burton Clark, Angélica Natera e Daniel Levy (Estados Unidos), Glen Jones, Barbara Bodkin (Canadá), Michael Shattock e Koen Lambarts (Inglaterra), Jose Joaquim Mira e Carlos Garulo (Espanha) e Yen Fagquiao (China) e Ka Ho Mok (Hong Kong) afirmam em seus livros e artigos que as IES que realmente querem realizar mudanças para tornarem-se  instituições  competitivas e sintonizadas com as melhores referências do ensino superior precisam ter pessoas preparadas, ambiente favorável que estimula o aprendizado, comprometimento, capacidade de planejamento, inovação,  sustentabilidade e visão de futuro. Os últimos relatórios da UNESCO, da OECD e do Banco Mundial sobre ensino superior também vão no mesmo sentido.

Cito o nome dessas pessoas e das instituições não para ser o “chato de plantão”, mas para afirmar que há estudos realizados por gestores e intelectuais reconhecidos mundialmente, que servem de referência para os dirigentes de IES realizarem as mudanças institucionais. Aprendi com Cláudio de Moura Castro que a gestão se faz com evidências, parâmetros e  resultados.

Participei recentemente, a convite da ABMES, de um workshop com mantenedores de 100 IES de pequeno e médio porte. Como um dos coordenadores do trabalho, foi possível perceber que, de modo geral, as IES carecem do círculo virtuoso, por isso, enfrentam dificuldades.

Como podemos criá-lo? Primeiro, é preciso entender que a essência da criação do círculo virtuoso está nas pessoas, em especial, nos líderes.  A Revista Exame da segunda quinzena de março tem como reportagem de capa o tema da formação de talentos. Será a qualidade dos colaboradores e dos dirigentes, a capacidade de fazer as mudanças e corrigir as falhas e fragilidades,  de enxergar o que está porvir, de instigar a inovação e de congregar as pessoas que determinarão o sucesso de uma organização. Aqui penso no estilo de liderança.

O segundo fator refere-se ao investimento na formação das pessoas. Uma organização não faz as mudanças se não contar com pessoas compromissadas e bem capacitadas e formadas. O investimento significa formar talentos em todos os setores da IES. O terceiro indica que as mudanças precisam estar alinhadas com as melhores referências do ensino superior. Somente com a clara percepção e conhecimento do ambiente em que atuamos, os líderes poderão fazer as inovações que são necessárias. O quarto fator remete-nos à necessidade de construir o relacionamento com o entorno e isso indica a necessidade permanente de manter contato com formadores de opinião,  empregadores e organizações públicas e privadas. O quinto aspecto remete-nos à necessidade de clareza do planejamento, dos objetivos e das metas. Isso indica também a necessidade de olhar para o futuro e garantir a sustentabilidade. O sexto indica que a identidade, os valores e a ética são pilares da organização. Não existe prosperidade institucional onde a identidade não é vivenciada, os valores são meramente formais e a ética no relacionamento é deixada de lado. O sétimo elemento refere-se ao investimento em ações estratégicas. Não há prosperidade onde não há investimento em reflexão, infraestrutura, inovação e tecnologia.

Os elementos do círculo virtuoso indicados acima parecem ser fáceis e acessíveis a todas as IES. De fato, realmente os são, quando as IES, através de seus líderes, realmente decidem ser competitivas. É provável que todos nós tenhamos boas histórias e fatos que contribuíram para criar o círculo virtuoso. Aponto apenas sete fatores, entre outros, a partir de minha realidade em Lorena, onde sou um dos diretores da Unidade do UNISAL:

  • uma pessoa da secretaria elaborou um projeto para qualificarmos o plano de dependências. A proposta diminui o tempo de integralizacão do curso e responde à demanda dos estudantes;
  • a equipe financeira, por iniciativa própria, propõe, em diferentes momentos, formas de melhorar a captação e a sustentabilidade
  • colaboradores da secretaria, do financeiro e do marketing elaboraram uma proposta para diminuir a evasão;
  • em março de 2012 um grupo de professores da engenharia participaram de uma Missão Técnica em Harvard e MIT. Em 2013, um grupo de professores investiram na formação e participaram de uma Conferência em Salvador, promovida pela Expertise;
  • em 2012 iniciamos um processo de inovação acadêmica, com a participação de 5 professores. Hoje são mais de 20 e somos referência no uso do Peer Instruction. Há um processo de formação dos professores. Estamos em sintonia com um grupo de pesquisa de Harvard, que trabalha com o tema da inovação acadêmica;
  • todos os macroprojetos da Unidade são apresentados para gestores, colaboradores e todos podem opinar;
  • foi criado um grupo para discutir a identidade institucional;

Essas são algumas iniciativas que fomentam o círculo virtuoso. Temos pessoas que demostram que a satisfação e a realização profissional e pessoal estão diretamente relacionados aos resultados da Unidade de Lorena. As atitudes dessas pessoas quebram modelos tradicionais de gestão e são constantemente incentivadas. Fomentamos atitudes empreendedoras. O Centro de Empreendedorismo que criamos no início do ano tem como uma de suas metas fomentar a cultura empreendedora em Lorena.

A literatura mundial demostra que os líderes que romperam paradigmas ou mesmo os que fizeram mudanças mais suaves e reformistas foram contestados e criticados. Entretanto, os exemplos acima indicam que é impossível criar o círculo virtuoso sem romper com paradigmas.

Apesar de todas as boas iniciativas apontada acima, é preciso evitar fatores que impedem a criação do círculo virtuoso: a burocracia, o desejo exagerado do controle, a incapacidade de entender o ambiente, os desafios e as tendências do ensino superior (o que gera atitudes e decisões equivocadas), a inveja e as intrigas institucionais.

Faço um pedido a todos os gestores inteligentes, profissionais e de bom senso que, por favor, façam tudo para combater os exageros da burocracia e do controle (uma necessidade para realizarmos objetivos, metas e resultados, mas um desejo permanente dos que olham o controle como uma forma de exercer o poder) e demitam os invejosos e aqueles  que fazem intrigas institucionais. Essas pessoas são um perigo para a criação do círculo virtuoso.

Por outro lado, se há pessoas comprometidas, que trabalham em equipe, que estão focadas na eficiência dos custos e nos resultados  e que sejam, acima de tudo, éticas, é preciso valorizar e criar mecanismos de valorização e retenção. Gestores, não tenham dúvida, os talentos são os responsáveis pelo sucesso da instituição.

Se queremos que nossas IES sejam competitivas é preciso mudar atitudes e repensar a cultura organizacional. O ambiente do ensino superior vai ser cruel com IES que não criarem um circulo virtuoso. Espero que comecemos a pensar em tudo isso e iniciemos as mudanças necessárias.

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