Sábado, 18 Setembro 2010 14:28

Consórcios: uma alternativa para as IES brasileiras

De modo geral, os gestores das instituições de educação superior (IES) atuam mais como concorrentes do que como parceiros com vontade política de estabelecerem acordos de colaboração.

Já as associações e sindicatos que representam o setor da educação superior de iniciativa privada atuam como defensores dos interesses políticos, como agentes de orientação e de elaboração de estudos de cenários e de boas práticas de gestão acadêmica e administrativa. Além disso, funcionam como promotoras da agenda positiva para o setor de debates e manifestações públicas em defesa da iniciativa privada.

São instituições importantes para a organização e dinâmica do setor privado. Por outro lado, enfrentam dificuldades na articulação de projetos comuns duradouros ou na articulação de consórcios. O esforço da articulação esbarra na fragmentação dos interesses políticos e na falta de pró-atividade de parcela dos gestores institucionais.


Há no Brasil, por exemplo, carência de consórcios que possam funcionar como associações que promovem a efetiva colaboração entre as IES. Os consórcios são comuns nos Estados Unidos e há experiências na Europa. No Brasil, a estratégia é de colaboração para o “combate” ao inimigo mais comum das IES de iniciativa privada: o MEC, que em função da legislação educacional contraria os interesses do setor.


É preciso ir além de uma cooperação política e pensar em uma colaboração estratégica, focada na redução de custos, na captação de recursos e na melhoria dos processos acadêmicos e administrativos. No Brasil, uma boa experiência pode ser verificada na articulação entre as IES comunitárias do Rio Grande do Sul.


As universidades públicas federais de Minas Gerais apresentaram ao MEC a proposta de criação de um consórcio, que pode resultar na maior “universidade pública brasileira”, com um total de 41 mil estudantes, em uma organização que poderá reunir sete instituições: Alfenas (Unifal), Itajubá (Unifei), Juiz de Fora (UFJF), Lavras (Ufla), Ouro Preto (Ufop), São João del-Rei (UFSJ) e Viçosa (UFV). Os reitores dessas universidades assinaram no dia 09 de agosto de 2010 um protocolo de intenções. O objetivo é preparar um Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) até 15 de outubro deste ano e apresentá-lo ao MEC. A intenção é que o PDI entre em vigor a partir de 2011.


O objetivo do consórcio das universidades de Minas Gerais é otimizar os recursos, fortalecer o ensino, a pesquisa e a extensão, trocar experiências, permitir a mobilidade de alunos e professores e qualificar a oferta de cursos de graduação e pós-graduação.  Espero que os reitores das universidades envolvidas estabeleçam, de fato, um consórcio, que sem dúvida será um avanço para o setor público. Os gestores das IES públicas e privadas precisam acompanhar os resultados dessa proposta e de outras experiências.


O 12º. Fórum Nacional da Educação Superior Privada acontecerá nos dias 23 e 24 de setembro próximo, promovido pelo SEMESP. O Fórum tem como título “A próxima década na educação superior: não basta acompanhar, é preciso desconstruir, criar e inovar”. O SEMESP irá discutir, entre outros assuntos, o modelo de consórcio dos Estados Unidos. O CEO do “Consortium of Universities of the Washington Metropolitam Area”, senhor John Childers, estará no Brasil para apresentar o modelo de consórcios dos Estados Unidos, em especial, de Washington.


O consórcio de Washington foi estabelecido em 1964, reúne 14 IES públicas e privadas, universidades e colleges, de diferentes tamanhos. Em seu conjunto, as IES do consórcio possuem em torno de 155 mil estudantes e empregam 76 mil pessoas, além de adicionar na economia regional aproximadamente 12 bilhões de dólares por ano.


São finalidades do consórcio: fortalecer a sustentabilidade e instituir ações para reduzir custos das IES participantes, orientar os estudantes para que possam buscar financiamento, divulgar as oportunidades de financiamento do governo federal e estadual, aumentar a empregabilidade, criar programas de benefícios aos estudantes (programas de saúde, por exemplo), cooperar com a comunicação e divulgação dos projetos comuns e individuais, dinamizar a vida intelectual e cultural dos estudantes e da sociedade, colaborar para que as IES participantes assumam cada vez posição de destaque e liderança no ambiente de educação superior, manter relações políticas com os órgãos de governo, criar programas esportivos e manter cooperação entre professores, estudantes e bibliotecas.


É comum, entre os gestores brasileiros, o olhar para o imediato, a discussão de temas cotidianos e o olhar quase que único para o ambiente em que atua. É óbvio que são atitudes e olhares necessários, próprios da função do gestor. Porém, não há a preocupação com o médio e longo prazo, não é comum a discussão de estratégias e metas e a análise do sistema global de educação superior. A presença de companhias de educação em diversos mercados educacionais é um fenômeno mundial, por exemplo. Da mesma maneira, a formação de redes de cooperação entre as IES é uma situação cada vez mais presente em nosso ambiente. IES isoladas tendem a ser pouco dinâmicas e, provavelmente, serão mais sensíveis a diversos tipos de crise.


Entre as outras experiências de consórcio dos Estados Unidos, é relevante a proposta do “The Boston Consortium of Higher Education”, que reúne 15 IES, como Havard, MIT, Boston University e Boston College. São IES em que o orçamento pode variar de $ 37 milhões a 1,5 bilhão. As instituições do consórcio contam com aproximadamente 122 mil alunos. O consórcio trabalha com conceitos como economia em escala, aprendizagem organizacional e gestão profissionalizada. São preocupações do consórcio a projeção das transformações do sistema de educação e a necessidade de pensar o futuro e a diferenciação pelo valor agregado e pela qualidade.


A discussão que o SEMESP vai proporcionar aos participantes do Fórum é bem vinda, para que os gestores possam iniciar um debate sobre o tema e pensar em alternativas de criação de consórcios no Brasil. Temos experiência de integração de IES no sul do Brasil, entre as instituições comunitárias, mas prevalece a falta de percepção sobre os benefícios dos consórcios.


O Fórum do SEMESP tem funcionado como um momento de apresentação e discussão das melhores tendências da educação superior, em um ambiente que de modo geral é paradoxo. O sistema é dinâmico, mas há pouca inovação. Espero que possamos desconstruir, criar e inovar. É necessário elaborar propostas que possam ir além da homogeneidade predominante em nosso sistema de educação. Infelizmente, de modo geral, as IES de iniciativa privada preferem o que parece ser mais fácil: os modelos das grandes companhias de educação. Poucos são os gestores e as IES que ousam ser diferentes.

Ler 469 vezes

Newsletter

Livros

Podcast